Os primeiros 90 dias após uma amputação
Um panorama das etapas, cuidados e conquistas mais comuns nos três primeiros meses após a cirurgia.

Os três primeiros meses após uma amputação costumam ser descritos como um período de transição: o corpo ainda está se recuperando da cirurgia, o coto passa por transformações constantes e, ao mesmo tempo, começam os primeiros passos da reabilitação. É nesse período que se constroem as bases físicas e emocionais que vão sustentar todo o processo posterior, incluindo, quando indicada, a protetização.
Não existe um cronograma único para esses 90 dias. O ritmo de cada pessoa depende de fatores como idade, presença de comorbidades (diabetes e doenças vasculares, por exemplo), nível da amputação, condição de saúde geral antes da cirurgia e eventuais complicações no pós-operatório. O que se apresenta a seguir é um panorama das etapas mais comuns nesse período, não um roteiro fixo a ser cumprido.
Primeiras semanas: cicatrização e controle do edema
Logo após a cirurgia, a prioridade é a cicatrização da ferida operatória e o controle do inchaço (edema) do coto. A equipe de saúde acompanha de perto sinais de infecção, como vermelhidão, calor local, secreção ou febre, e orienta os cuidados com curativo e higiene.
Paralelamente, inicia-se o controle do edema por meio de enfaixamento compressivo ou do uso de meias compressivas específicas (shrinkers), que ajudam a modelar o coto em formato cônico — condição importante tanto para o conforto quanto para uma futura adaptação protética.
O posicionamento correto do corpo também é trabalhado desde os primeiros dias. Permanecer muito tempo com o quadril ou o joelho flexionados pode levar ao desenvolvimento de contraturas, que dificultam a extensão completa da articulação e podem comprometer etapas posteriores da reabilitação. Por isso, orientações sobre postura na cama e na cadeira costumam começar ainda nessa fase inicial.
Também é comum, nesse período, o relato de dor fantasma ou sensação fantasma — a percepção de dor ou presença no membro que não existe mais. Trata-se de um fenômeno neurológico já documentado, e seu manejo, combinando recursos físicos e acompanhamento médico, tende a melhorar progressivamente ao longo da reabilitação.
Semanas 3 a 6: fortalecimento e retomada da mobilidade
Com a ferida cirúrgica mais estabilizada — sempre conforme a liberação da equipe médica, que varia de caso para caso —, a fisioterapia costuma ganhar mais intensidade. Os principais focos dessa fase incluem:
Dessensibilização do coto, com toque, texturas diferentes e estímulos progressivos, preparando a região para tolerar contato e pressão constantes, exigidos futuramente pelo encaixe da prótese.
Fortalecimento muscular do coto, do tronco e dos membros superiores, musculatura que será exigida nas transferências e, mais adiante, no controle da marcha.
Treino de equilíbrio e transferências, incluindo sair da cama para a cadeira, deslocar-se até o banheiro e manter o equilíbrio sentado e, progressivamente, em pé com apoio.
Manutenção do condicionamento cardiorrespiratório, que influencia diretamente a capacidade de retomada da marcha nas fases seguintes.
Nesse período, é comum que a locomoção ocorra com cadeira de rodas ou andador, conforme o tipo de amputação e a condição física de cada pessoa.
Semanas 6 a 12: consolidação dos ganhos
Ao final dos três primeiros meses, quando a evolução ocorre dentro do esperado, observa-se geralmente um coto mais cicatrizado e com volume mais estável, maior força e controle motor, e maior independência para atividades do dia a dia — esta última também influenciada pelo suporte familiar e social disponível.
É também nessa fase que, em um cenário ideal, se avalia a indicação da prótese, já que o coto tende a apresentar condições mais favoráveis ao encaixe.
Cenário ideal e a realidade do acesso pelo SUS
O panorama descrito até aqui representa um cenário ideal: cicatrização adequada, acompanhamento fisioterapêutico contínuo e, ao final dos primeiros meses, indicação e confecção da prótese, permitindo o início do treino de marcha protética ainda dentro dessa janela de tempo.
Na prática, porém, uma parcela significativa das pessoas amputadas depende do Sistema Único de Saúde (SUS) para acessar a reabilitação e a prótese, e o processo costuma ser mais demorado do que esse panorama sugere. Ele geralmente envolve encaminhamento a um Centro Especializado em Reabilitação (CER) ou serviço equivalente, avaliação por equipe multiprofissional e confecção da prótese, muitas vezes realizada sob demanda em oficinas ortopédicas vinculadas ao SUS. Dependendo da região do país e da demanda do serviço, essa espera pode se estender por muitos meses, e em alguns casos ultrapassar um ano.
Essa diferença entre o cenário ideal e a realidade de acesso não deve ser interpretada como uma falha do paciente ou da família, e sim como uma limitação estrutural do sistema de saúde. Diante dela, alguns pontos merecem atenção:
A fisioterapia não deve ser interrompida enquanto a prótese não é disponibilizada. É justamente esse período de espera que permite consolidar força, equilíbrio, amplitude de movimento e condicionamento físico, fatores que tornam a adaptação à prótese mais rápida e segura quando ela finalmente chega.
Os cuidados com o coto — enfaixamento, dessensibilização e observação da pele — devem continuar mesmo sem previsão de prótese, evitando complicações que poderiam gerar ajustes ou atrasos adicionais no momento da protetização.
O suporte psicológico e o contato com grupos de outras pessoas amputadas contribuem para o engajamento no processo, especialmente diante de esperas prolongadas.
O acompanhamento do serviço social da unidade de saúde pode auxiliar na compreensão dos trâmites e prazos do processo dentro do sistema público.
Em alguns serviços já é oferecida prótese provisória ou imediata logo após a cirurgia, mas essa prática ainda não está disponível de forma uniforme em todo o país, dependendo da estrutura de cada hospital e equipe.
Considerações finais
Os "90 dias" descritos aqui representam um panorama de referência, e não uma meta a ser cumprida. O tempo de cicatrização e reabilitação varia de pessoa para pessoa, e pode ser influenciado tanto por fatores clínicos individuais quanto pelas condições de acesso ao sistema de saúde.
Independentemente do ritmo de cada caso, a manutenção do acompanhamento com a equipe de reabilitação, os cuidados contínuos com o coto e a atenção ao aspecto emocional do processo seguem sendo elementos centrais, com ou sem prótese disponível nesse período. Cada etapa alcançada — maior mobilidade, equilíbrio, independência para atividades do dia a dia — integra o processo de reabilitação e representa avanço real, ainda que a protetização ocorra mais adiante.
